terça-feira, 19 de julho de 2011

Discutindo o documentário: O Juízo

ADOLESCENTES INFRATORES

O foco central do documentário é baseado no julgamento de adolescentes que cometeram infrações, proporcionando assim reflexões relacionadas às dificuldades que muitas vezes impedem o cumprimento de certas leis referentes a esse público.
Para inicio de conversa, recorramos a um breve trecho do artigo ADOLESCENTES AUTORES DE ATOS INFRACIONAIS: PROCESSOS DE EXCLUSÃO E FORMAS DE SUBJETIVAÇÃO onde diz:


"Ao determos o olhar sobre os adolescentes que cometem atos infracionais, deparamo-nos com situações muito mais complexas e conflitos bem mais amplos do que aquilo que diz respeito ao cumprimento das leis. Os conflitos que aí emergem, pelos quais somente o adolescente e, eventualmente, seus familiares são punidos, dizem de uma injusta ordem estabelecida."


Da mesma forma que em muitos contextos existem diversos tipos de relações, no contexto apresentado no documentário isso não é diferente. Pode-se entender por relação “uma ordenação, um direcionamento necessário de uma coisa, em direção à outra”, ou seja, faz-se necessário haver a presença de duas coisas que se ligam para a existência de uma relação. Não necessariamente esta será uma ligação baseada em afetos, uma vez que os próprios conflitos são exemplos de um tipo de relação.  Assim, com base no documentário, o contexto apresentado nos permite perceber que a relação em existente é baseada em uma relação de dominação, onde há a apropriação das capacidades e dos poderes dos adolescentes em questão, e devido a isto estes passam a ser tratados com desigualdade e injustiça, o que acaba por influenciar e interferir na formação e na manutenção da subjetividade individual dos mesmos.
Se tomarmos como base o ECA, pode-se observar que muitos direitos dos adolescentes abordados no documentário foram violados, sendo que estes podem ser descritos utilizando como exemplo a forma na qual estes são transportados, ou seja, em veículo policial fechado, além das formas que são instituídas as medidas socioeducativas, sendo estas em instituições em que estes são tratados sem condições mínimas de higiene, e sem atividades pedagógicas, fatores que não contribuem de nenhuma forma para a integridade física e metal dos mesmos, pelo contrário, podem acarretar ainda mais riscos.
É incrível o quanto a sociedade mantém uma postura tão hipócrita em relação a tais situações, uma vez que quer queira, quer não, estes adolescentes infratores são frutos desta mesma sociedade “de relações cada vez mais fugazes, provisórias e tênues”, dotada de “desequilíbrios nas relações sociais e na própria subjetividade”. Com os avanços da chamada globalização, somos cada vez mais “manipulados” ao consumismo, onde os produtos apresentados são vistos como forma de existência, não mais voltado para a questão do “ter”, mas sim para o “ser”. Com isso a maior parte da sociedade é marginalizada, uma vez que a esta não se é permitido usufruir dos benefícios e consumos oferecidos, pois, essa maior parcela vive em situação de exclusão e desigualdade, que são pautadas tanto nas questões econômicas quanto sociais. Vale ressaltar que é essa mesma parcela da população, de classe baixa e que vivem à margem da sociedade, que muitas vezes são os mais “responsabilizados” pelo aumento da violência e dos crimes atuais. Será isso então uma mera coincidência? Não que a intenção seja retirar toda a responsabilidade destes e culpabilizar apenas a sociedade, mas, será que se fossem garantidas as condições básicas para a sobrevivência, desenvolvimento e formação destes jovens a situação seria a mesma?
Concluímos assim que em todo e qualquer caso e situação se faz extremamente necessário uma análise completa de todos os fatores, tanto históricos quanto sociais, para que assim sejam elaboradas intervenções mais adequadas a tais contextos. Vemos que ainda hoje há ausência de políticas públicas que possam lidar de formas mais assertivas no que se refere a casos que envolvam crianças e adolescentes e acreditamos que toda ação voltada não só para esse público, mas para diversos outros, devem ser pautadas na ética, com o objetivo de manter a integridade física e metal dos indivíduos, contribuindo para o desenvolvimento dos mesmos, o que não pôde ser observado no documentário.


SINOPSE

O filme acompanha a trajetória de jovens com menos de 18 anos diante da lei. Meninas e meninos pobres entre o instante da prisão e do julgamento por roubo, tráfico, homicídio. O documentário conduz o espectador ao instante do julgamento para desmontar os juízos fáceis sobre a questão dos menores infratores.



TRAILER


Eu recomendo!

2 comentários:

  1. Longe de querer esgotar a problemática levantada, deixo três dificílimas perguntas que surgiram após a leitura:
    1. A partir de que idade o indivíduo é adolescente (é possível medir isso?)?
    2. O que as pessoas de fato querem dizer quando oferecem a esta e a semelhantes problemáticas a resposta de que "a solução está na educação"?
    3. Se nem as autoridades nem as desautoridades sabemos lidar com adultos (os quais estariam numa fase mais "estável" do desenvolvimento mental) em sistemas prisionais, como o faremos com adolescentes e crianças?

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  2. Caro Roger, o tema adolescência é algo discutido em diversos víeis. Há diversas contradições entre autores em relação à idade em que se começa esta fase, porém, utilizando como base a referência da Organização Mundial de Saúde, a adolescência é uma fase que vai dos 10 aos 19 anos de idade. Contudo, vale ressaltar que tal afirmação pode variar de cultura para cultura, mas podemos utilizar dessa afirmação a principio para continuar a discussão.
    Quanto as outras duas questões, eu enquanto leiga, também acredito que a solução está na educação. Porém, esta deve ser uma educação de qualidade, que forme o indivíduo enquanto cidadão, conhecedor de seus deveres e direitos. O que percebo hoje é que a sociedade não se preocupa em formar cidadão críticos e questionadores fazendo com que assim muitos se tornem seres alienados. A educação é a porta de entrada para o conhecimento... Conhecimento este que vai além do significado da própria palavra.
    Já sobre a forma de lidar com crianças e adolescentes realmente tem sido uma incógnita, pois, a própria legislação demonstra certa confusão, apresentado-se de forma contraditória. Um jovem de 16 anos de idade já tem responsabilidade suficiente para votar, porém não pode responder legalmente por crimes, não pode dirigir...
    Faz-se necessário assim, buscar alternativas para melhor atender este público e acredito que a multidisciplinaridade de diversas áreas do conhecimento é capaz de buscar e de sugerir novas formas para lidar com as demandas sociais que a cada dia que passa tornam-se mais complexas e transformam-se em um piscar de olhos.

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